Artigo: O pragmatismo e a paixão
Data: 03/04/2010
Por Roberto Siegmann
Vice-presidente de Serviços Especializados e assessor de futebol
Era 1979, o país começava a respirar os ares da abertura política, materializada pela anistia. Em Porto Alegre, se fazia presente o velho, apelido do lendário Luis Carlos Prestes, a quem a história reservou especial papel por ter protagonizado um dos maiores feitos militares, a Coluna Prestes.
O velho acordava cedo, lia todos os jornais e ingeria uma complexa série de comprimidos, o que desafiava a nossa jovial fantasia acerca dos mistérios soviéticos.
Talvez estivesse ali o segredo da sua longevidade.
No caminho ao Salgado Filho, com o rádio do carro ligado e no horário do comentário sobre futebol, indagou: o Chico Spina fez dois gols no Maracanã, o que leva o Inter à final do Campeonato Brasileiro e é criticado? Ficamos espantados com o comentário, pois ele desbordava os limites das especulações políticas.
Prestes era um homem austero, rígido pela longa instrução militar e, por paradoxal que possa parecer, um pragmático. Havia apenas uma lógica possível, a da relação entre causa e efeito.
O tempo passou, a política mudou e o futebol também.
É impossível imaginar que Charles Miller tenha pensado que a sistematização de um esporte que remonta ao ano de dois mil e quinhentos antes de Cristo, provocasse um dos maiores fenômenos econômicos e de entretenimento da atualidade.
É a magia da bola, como em “O Mistério de Kaspar Hauser” de Werner Herzog. Nos primeiros contatos com o mundo, Kaspar se surpreende com a queda de uma fruta redonda, que rola sobre o terreno em declive. Quem esquece o sorriso maroto de uma criança que tenta dominar a bola?
Claro, talvez esteja aí o segredo de tudo! Domínio, dominar, determinar, etc.
Nós, animais racionais, temos a pretensão de dominar tudo. Lembro do professor de Ciências Naturais que afirmava, em discutível e sintética definição, que o homem, por racional, se diferenciava dos demais seres vivos por dominar a natureza.
Com tanta onipotência, dominar a bola e atingir o resultado querido parece tarefa irrisória. Surgem as teorias, aos milhares, futebol-arte, futebol-resultado, futebol- espetáculo, futebol-força, etc. Esquemas táticos, para todos os gostos, levando o propósito de Miller quase a um tabuleiro de xadrez.
Ao final de cada jogo, realizo uma pesquisa muito particular. Pergunto a cada um dos meus pares acerca das virtudes e defeitos apresentados pelo time. É estarrecedor, pois a visão que cada um revela é quase única. O melhor para uns é o pior para outros.
Que fascínio é esse que, como miragem, revela a cada espectador realidades tão diferidas?
Sou daqueles que prefere não as teorias enigmáticas sobre o futebol, mas o texto solto do Nelson Rodrigues e as já saudosas definições do Armando Nogueira. Gosto da poesia sem regras, das habilidades surpreendendo as equações, da camiseta suada, do exaurimento físico e das arquibancadas em alvoroço pelo gol marcado.
Foi assim na última quarta-feira, ali no Beira-Rio, o mundo era vermelho. As vozes entoavam um mesmo grito e os jogadores em busca do almejado resultado.
Fosse um jogo de xadrez, prevalecesse o pragmatismo do velho, poderíamos estar diante do novel futebol-acéptico.
Que prevaleçam as paixões e os rituais sobre todos os amaldiçoados esquemas. Que a vitória seja do drible maroto, do passe arrojado e do gol a sacudir os estádios.
Afinal, nem o homem domina a natureza, nem a bola possui lados e nem todo o espaço é reservado apenas à razão.
* Artigo publicado no Blog do Hiltor Mombach